16 de Dezembro de 2009

O senhor e o mister

É verdade que quem quer ser campeão tem de ser regular e é verdade, como diz Miguel Sousa Tavares, que “as grandes equipas são as dos grandes jogos”. É verdade que a pressão aperta especialmente o Benfica (o clube que faz vender mais jornais em Portugal) e é verdade, como lembrou Rui Costa, que só se ganha no finzinho. É verdade que o galo em Olhão foi triplo, pois perdemos dois pontos, perdemos a oportunidade de passar o Braga e perdemos Ramires, Coentrão e Di María para o jogo com o F. C. Porto, e é verdade que os “clássicos” são sempre casos à parte.
    Este que aí vem vai ser um tremendo de um jogo-de-caricas filosófico entre Jesus e Jesualdo. Ou muito me engano ou serão eles os protagonistas da grande partida desta jornada. Dois estilos muito, muitíssimo diferentes, quase opostos. Jesualdo é professoral e contido, Jesus é estudioso e desbocado. Jesualdo é introvertido e zen, Jesus é extravagante e rock. Numa frase: Jesualdo é um senhor e Jesus é um mister. Digo “senhor” e “mister” mas sem mal, claro, amigos. Quero apenas sublinhar que são duas figuras de universos não coincidentes, cromos de diferentes cadernetas. 
    Mesmo nos pequenos detalhes, nos modos de comunicação. (E, não, não vou falar das fantasias gramaticais do treinador do Benfica.) Enquanto Jesualdo aproveita entrevistas e conferências de imprensa para passar mensagens para os jogadores, Jesus (é uma suposição, mas quase que juro) tem um discurso aos microfones – palavras para adeptos e adversários – e outra conversa mais dura entre as quatro paredes do balneário. Espero bem que assim seja, que aquele paleio de “parabéns” depois do empate com o Olhanense não lembra o caneco. O Glorioso não pode estar nisto para “conquistar empates”...
    Mas, como ia dizendo – sim, aposto que a partida com o FCP vai ser uma coisa mental. Uma espécie de Tetris ao contrário. Estão a ver, aquele jogo de computador em que temos de encaixar as peças umas nas outras? No relvado da Luz vai ganhar quem conseguir “desencaixar” melhor. E, para isso, pode ser que o novo meio-campo do Benfica até ajude. O famoso efeito surpresa. Não sei, experimentemos com os gregos de Atenas primeiro. Não foi com eles que começou tudo?

(no JN de hoje)

15 de Dezembro de 2009

Coligação negativa?

Parece que a questão da governabilidade subiu ao palco e está sob os holofotes, à espera, a ver como é que a vemos. Da minha parte, devo confessar-me desiludido. Perante expressão tão sonora e solene – “questão da governabilidade” –, uma pessoa imagina uma luta heróica, apaixonada, grega!, entre duas ou mais visões do país e do mundo, da economia e da cultura, do amanhã e do futuro mesmo. E, no entanto, levantamos o cobertor do regime e o que é que vemos?
O governo parece ter escolhido um plantel “técnico” para apostar num jogo “táctico”. Não dá mostras de querer atacar as nossas crises de sempre com uma nova ideia transformadora, quer apenas não sofrer golos. O PSD não sabe o que quer e deixa-se ir à deriva, sem as vantagens das chicotadas psicológicas nem os lucros da estabilidade. BE, PCP e PP não querem ser parte de qualquer solução, e marcam-se uns aos outros na competição pelo melhor protesto. E até o Presidente, se bem percebi, veio dizer que não quer ser árbitro, contenta-se com a modesta função de “válvula de segurança”.
Que lugar é este onde ninguém parece querer nada que valha a pena? Perante isto, nem é preciso chamar os pessimistas oficiais. Perante isto, todos descobriremos o pessimista amador que há em nós. E não é brincadeira nenhuma, que assim acordaremos um dia e não teremos como não concordar: há uma “coligação negativa”, pois, mas é de todo o país político.

14 de Dezembro de 2009

Fosse tão feliz o futuro


Os horários não são muito amigos e os funcionários são mesmo antipáticos, mas Lourdes Castro e Eduardo Batarda mais que merecem a nossa visita ao Palácio dos Anjos, em Algés.

11 de Dezembro de 2009

Boa nova

Don DeLillo tem um livro novo, "Point Omega", que vai sair em fevereiro de 2010.


E um conto, "Midnight in Dostoevsky", para ler na New Yorker, grátis.

10 de Dezembro de 2009

Peças para construir perguntas

Quando é que um relojoeiro pega nisto?



Quando é que um lisboeta pega nisto?








E quando é que um astronauta completamente passado dos cornos pega nisto?


9 de Dezembro de 2009

A alegria simples do regresso

A alegria benfiquista é a do regresso a casa, do regresso à normalidade, do regresso à rotina, quase: quatro golos, quatro bolas no lugar devido, mais quatro secos. Desta vez, a prenda calhou à Académica, no ambiente épico da Luz sob uma chuva primordial.
    O regresso à normalidade do Glorioso (e, claro, a normalidade do Glorioso só pode ser a glória) passa muito pelo regresso de Cardozo. O nosso paraguaio preferido, sendo uma anti-estrela de desarmante humildade e palavras curtas, é um matador dos mais eloquentes. No momento X do remate, sabe a arte difícil de atirar sem flores nem complicadismos. Ao contrário do que alguns sugerem, o melhor matador não é o que chuta por instinto, logo-logo. Sim, é preciso atirar rápido e “sem pensar”, mas antes há que respirar fundo, esfriar a cabeça e dizer para dentro “calma, meu”. Aí é que está o segredo, não é Óscar? E depois, bum, tiraço lá para dentro, adios, bye-bye. Três! Três é a conta que o homem fez.
    Mas este regresso às goleadas também se explica olhando para trás, para a defesa, para quem segura a “zaga”, para quem sabe que o carisma e a autoridade ainda valem mais do que pernas e sangue na guelra. Pois, falo de Luisão. O capitão, o grande faraó dos brasis e benficas, lidera o ataque a partir da nossa área, e é sempre mais complicado atropelar as equipas adversárias quando ele não está lá. Um mestre à antiga, um artista da contenção, um professor catedrático. (David, aprende, com um pouco desta sabedoria zen hás-de ser o maior central do mundo.) Bem regressado, Luisão! Obrigado especialmente pelo zero deles.
E como não falar daquele outro, o golo que falta? Maxi chega ali às esquinas da área e larga a bola para a frente; Saviola recebe-a, um toque económico de pé esquerdo, ajeitando e avançando de uma só vez. Como um grande poeta da simplicidade, uma palavrinha e dois belos sentidos. E agora, silêncio, por favor, amigos. Silêncio, que se vai dançar o tango. Um tango minimalista, só coração e dedos dos pés. Javier Saviola, nosso pequeno deus argentino, faz a chuteira entrar e sair debaixo da bola e esta, zás, muda-se em chapéu, folha seca, obra-prima. (Postal ao jovem poeta: basta veres isto com boa atenção.)
   
(no JN de hoje)

8 de Dezembro de 2009

Árvores

A árvore mais antiga de Portugal.

E a banda do Todd, que veio cá fazer o baixo dos Little Joy.